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09/09/2026

CE: Setembro Amarelo: a urgência da escuta atenta no combate ao sofrimento silencioso em um mundo acelerado

Fonte: ASCOM/DPECE
Estado: CE
Em uma sociedade marcada pelo ritmo cada vez mais acelerado, parar por alguns instantes para ouvir alguém sem pressa tornou-se um gesto cada vez mais raro e necessário. Diante desse cenário, a Defensoria propõe, no Setembro Amarelo, que a prevenção ao suicídio coloque a escuta no centro do debate e reforçando o esforço contínuo para quebrar tabus relacionados à saúde mental.
 
Guiada pelo tema “Escutar é estar presente”, promovido pelo Centro de Valorização da Vida (CVV), a campanha reforça a importância do acolhimento, da presença e de uma conversa sem julgamentos como caminhos para a valorização da vida e a prevenção do suicídio.
 
“A campanha deste ano traz essa dimensão da presença e da escuta, que são muito importantes e essenciais nesses casos. Vale frisar que qualquer pessoa que passe por questões psíquicas precisa de respeito, acolhimento, escuta e acompanhamento profissional”, destaca Andreya Arruda, coordenadora do setor psicossocial da Defensoria Pública. 
 
Essa necessidade de escutar ganha ainda mais relevância diante das transformações provocadas pelo modo de vida contemporâneo, especialmente no ambiente digital e em seus impactos nas relações pessoais. 
 
No contexto atual, é comum confundir o contato constante, por meio de mensagens e áudios, com uma presença efetiva nas relações. Embora as palavras digitadas sejam capazes de manter vínculos e transmitir sentimentos, a presença física ainda permite perceber detalhes que nem sempre atravessam as telas, como o tom de voz, as expressões faciais, os gestos, os silêncios e outras mudanças de comportamento que também comunicam o que alguém está sentindo.
 
A pressa passou a fazer parte até da maneira como as pessoas consomem informações e se comunicam. Cerca de 43% da população brasileira vive na chamada “velocidade 2x”, marcada pela aceleração constante. Um em cada quatro brasileiros admite ouvir áudios e assistir a vídeos em modo acelerado, segundo pesquisa do Datafolha divulgada em 2023.
 
Em meio a esse ritmo, reservar tempo para uma conversa e perceber o que acontece com quem está ao redor torna-se ainda mais importante. O sofrimento emocional nem sempre é facilmente percebido. Muitas vezes, manifesta-se de maneira silenciosa e está relacionado a uma combinação de diferentes fatores que podem contribuir para o risco de suicídio. 
 
Órgãos de saúde ressaltam que não existe uma fórmula exata capaz de prever quando uma pessoa atravessa um período de intenso sofrimento emocional. No entanto, algumas mudanças de comportamento podem funcionar como sinais de alerta e indicar a necessidade de atenção e acolhimento.
 
“É preciso deixar claro que nem sempre os sinais e sintomas são visíveis e bem expressos, mas é importante estar atento a alguns comportamentos, como isolamento, humor deprimido e frases que expressem desesperança. Existem também fatores que podem estar associados, como perda do emprego, luto, mudanças bruscas de vida e situações de violência física ou psíquica”, explica Andreya Arruda.
 
A dimensão do problema reforça a necessidade de ampliar esse olhar. Dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) apontam que mais de 720 mil pessoas morrem por suicídio todos os anos no mundo, um fenômeno complexo que atravessa diferentes idades, origens e realidades sociais. Enfrentar essa realidade não é nada fácil, mas existem pontos de partida para isso, entre eles o acolhimento atento dentro de casa e nas relações próximas.  
 
“A melhor forma é estar realmente presente e atento. Mudanças de comportamento e seus extremos também devem ser observados, como insônia ou excesso de sono, inapetência ou compulsão alimentar, mas nada disso, isoladamente, pode ser considerado ‘o sinal’. Buscar ajuda profissional é essencial nesses casos, tanto para quem está em risco quanto para as pessoas que são seu suporte direto”, orienta Andreya Arruda.
 
O crescimento do sofrimento na juventude 
A realidade acende um alerta especial para as novas gerações. Segundo a Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente (SVSA), entre 2016 e 2021, o Brasil registrou um aumento de 49,3% na taxa de mortalidade por suicídio entre adolescentes de 15 a 19 anos.
 
Na faixa de 10 a 14 anos, o crescimento foi de 45%, conforme dados divulgados pelo Ministério da Saúde em setembro de 2022 . A dimensão do problema coloca o suicídio como a terceira principal causa de morte entre jovens de 15 a 29 anos no cenário global, segundo a OMS.
 
Nesse cenário, para a defensora Noêmia Landim, supervisora do Núcleo de Atendimento da Defensoria Pública à Infância e Juventude (Nadij), o ambiente virtual também aparece como um espaço que exige atenção, embora não possa ser apontado isoladamente como explicação para um fenômeno tão complexo. 
 
“O suicídio é uma questão muito complexa, você não pode imputar somente aos perigos que o ambiente digital pode ocasionar para as crianças e para os adolescentes. Na verdade, esse problema já existia antes nas redes sociais, mas ele realmente foi potencializado devido ao fácil acesso a esses conteúdos que incitam ao suicídio, à automutilação”, ressalta.  
 
A consolidação do ambiente digital como espaço primário de convivência traz novos desdobramentos para a proteção de crianças e adolescentes.
 
Um caso em julho deste ano em Naviraí (MS) demonstra como o ambiente virtual pode se transformar em um espaço de coação e extrema vulnerabilidade. A morte de uma adolescente de 13 anos, tratada como suicídio, passou a ser investigada pela Polícia Civil após a identificação de um esquema de coação virtual. Integrantes de grupos organizados atraíam jovens com perfis públicos em redes sociais, conquistavam sua confiança e os direcionavam para plataformas como Discord, bastante utilizada por jogadores de games online e também por adolescentes  
 
Com os dados pessoais dos jovens, passavam a fazer ameaças e exigir o cumprimento de desafios violentos sob extrema manipulação psicológica, prática que a polícia classificou de “escravização virtual”.
 
“As crianças, quando elas estão sofrendo ameaças ou coação, ou no ambiente presencial, como também no ambiente virtual, elas vão mudar o comportamento, então elas vão ficar mais ansiosas, mais nervosas, vão se isolar, vai aparecer alteração do sono, o rendimento escolar dela vai diminuir. Então é muito importante que os pais observem se os seus filhos estão com o comportamento alterado, se eles estão demonstrando maior ansiedade, maior medo, mais isolamento, um choro sem razão, sem causa aparente”, afirma Noêmia Landim. 
 
Em agosto deste ano, a Agência Nacional de Proteção de Dados (ANPD) suspendeu as funções de transmissão ao vivo, chamadas de vídeo e compartilhamento de tela do Discord. Em 2 de setembro, representantes da plataforma e do Governo Federal participaram de uma audiência de conciliação, na qual ficou definido que o Discord deverá apresentar, em até dez dias úteis, propostas de melhorias para adequar o serviço às exigências da legislação brasileira, especialmente às regras estabelecidas pelo ECA Digital.
 
Casos como esses expõem a necessidade de um acompanhamento próximo e contínuo sobre a dinâmica de uso das redes por crianças e adolescentes, transformando a segurança digital em uma pauta central de saúde pública e de proteção à juventude.
 
Essa proteção ganhou um novo marco em março de 2026, quando o ECA Digital (Estatuto Digital da Criança e do Adolescente – Lei n° 15.211/2025) entrou em vigor, estabelecendo obrigações para produtos e serviços digitais acessados por crianças e adolescentes e prevendo medidas relacionadas à proteção de dados, aferição de idade, supervisão parental, publicidade e jogos eletrônicos.
 
“A primeira coisa que a gente tem que ter em vista é que o ECA Digital não vai substituir o Estatuto da Criança e do Adolescente de 1990. Ele vai elevar essa proteção para o ambiente digital, ou seja, para as redes sociais, para os aplicativos, para os jogos, as lojas de aplicação, plataformas de vídeo e todos esses serviços virtuais que as crianças e os adolescentes podem acessar. E o interessante é que o ECA Digital traz essa responsabilização, essa proteção da criança também como obrigação para as empresas que fornecem esses serviços”, explica Noêmia.
 
Atuação da Defensoria Pública do Ceará
A Defensoria Pública também integra a rede de proteção de crianças e adolescentes, atuando tanto na orientação às famílias quanto diante de situações em que direitos estejam ameaçados ou tenham sido violados. 
 
“A Defensoria atua tanto através das orientações para os pais, como também uma vez que esses direitos das crianças e dos adolescentes venham a ser de fato ameaçados ou violados. Então a Defensoria pode requerer medidas de proteção, pode articular uma atuação com a saúde, com assistência social, com Conselho Tutelar e com todos os demais órgãos da rede”, afirma Noêmia Landim. 
 
O cuidado com a saúde emocional também está presente em projetos desenvolvidos pela Defensoria. O Entrelaços organiza ações de cuidado voltadas para dentro e para fora da instituição, com foco no fortalecimento da escuta, na ampliação do diálogo social e na melhoria contínua dos serviços prestados, sem deixar de olhar para as pessoas que compõem a instituição.
 
“Desde 2018, mantemos o programa de saúde e qualidade de vida com ações pontuais. Com a consolidação do ‘Entrelaços’, que é a política de cuidados da Defensoria, buscamos dar ainda mais efetividade a essas iniciativas, partindo da premissa de que cuidar de quem cuida é fundamental”, ressalta Andreya Arruda.
 
Em um cotidiano no qual relações, áudios, vídeos e conversas parecem precisar caber na velocidade 2x, talvez a primeira atitude seja justamente desacelerar. Um estudo da Universidade de Ghent na Bélgica aponta que um adulto lê, em média, 238 palavras por minuto. Nesse ritmo, são necessários aproximadamente 6 minutos e 51 segundos para percorrer as  1.631 palavras desta matéria.
 
Que esses quase 7 minutos sejam lidos sem aceleração. E que, depois deles, também seja possível reservar esse mesmo tempo ou até mais para ouvir e acolher alguém. Porque, como marca o tema deste Setembro Amarelo, escutar é estar presente.
 
Onde Buscar ajuda 
CVV (Centro de Valorização da Vida): Ligue 188 (disponível 24h, gratuito) ou acesse https://cvv.org.br/ para atendimento via chat.
 
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