A paternidade chegou duas vezes para Hurcley Saruy: primeiro por Hisys Riana, sua filha biológica, depois por Hirys Haishila, nascida do ventre de sua irmã e do afeto que ele escolheu oferecer. As duas cresceram juntas, sob o mesmo teto, com o mesmo homem como referência paterna, mas a certidão de nascimento de Hirys contava uma história diferente. Em maio deste ano, a Defensoria Pública do Amapá (DPE-AP), em Oiapoque, corrigiu esse desencontro e reconheceu oficialmente o que a família já vivia há anos.
Hirys é filha biológica de Claudete, irmã de Hurcley. O pai da menina desapareceu ainda durante a gravidez, e foi nesse vazio que Hurcley se colocou, não por obrigação, mas por escolha. Desde antes de Hirys nascer, ele já a tratava como filha. Foi ele quem escolheu seu nome, deu o primeiro banho e a criou desde sempre.
"Eu cheguei e falei para minha irmã: 'mana, eu quero ser pai do seu filho. Independente de ser menino ou menina, quero ser o pai'. Foi um momento de muita emoção para toda a nossa família", lembrou Hurcley.
Ele já havia tentado regularizar a situação quando Hirys tinha cerca de cinco anos, mas foi orientado a esperar até que ela tivesse idade suficiente para que a própria voz tivesse peso jurídico no processo. Ele esperou e seguiu sendo pai nas consultas médicas, nas reuniões escolares, nos aniversários e em todos os dias. Quando cresceu, Hirys passou a questionar a ausência do sobrenome do pai. Aos 13 anos, a família entendeu que era hora de buscar os direitos da adolescente.
O caso exigiu um procedimento específico: o reconhecimento de paternidade socioafetiva com multiparentalidade. Carlos Marques, defensor público responsável pelo caso, explicou que o instituto jurídico reconhece como pai ou mãe aquele que exerceu essa função na prática, com afeto, convivência e responsabilidade, independentemente de vínculo biológico. Na multiparentalidade, esse reconhecimento coexiste com o registro do pai ou mãe biológico, sem substituí-lo. No caso de Hirys, que já tinha o nome do pai biológico na certidão, ambos os vínculos passariam a constar no documento.
"É mais uma vez a Defensoria reconhecendo a dignidade familiar, a dignidade das pessoas envolvidas e o afeto como valor jurídico", afirmou Carlos.
Para Hurcley, a conquista tem o peso de uma vida inteira.
"A gente conseguiu, graças a Deus e graças à Defensoria Pública, que sem vocês nada disso seria possível. Estamos muito felizes e muito gratos”, comemorou o pai.
Na audiência final, Hirys foi ouvida diretamente pelo juiz. Respondeu a cada pergunta com serenidade. Foi nesse momento que ela mesma pediu que o sobrenome de Hurcley passasse a integrar o seu. Agora, Hirys Haishila carrega também o "Saruy" do pai. Os documentos foram encaminhados ao cartório para a alteração oficial, e 13 anos de paternidade exercida na prática ganharam, enfim, o peso de um registro.
"Era algo que eu queria muito. Fiquei muito feliz sabendo que estou com o sobrenome dele e que isso agora está se realizando. Pra mim é só felicidade agora, já que era algo que eu queria tanto", disse Hirys.