Os pés descalços e a serpente
Estado: DF
Marcelo Moraes Salles é Defensor Público Estadual do Mato Grosso do Sul
No princípio foi construído um esplêndido jardim, a ser observado pelas pessoas que por ali passassem, a fim de que pudessem desfrutar de momentos de paz.
Naquele jardim existiam muitos atrativos. A bela paisagem predominava e a natureza lá mostrava toda a sua exuberância.
Com todos aqueles encantos, foi necessário, como tudo na vida, a criação de regras para permitir a sua contemplação pelo maior número de pessoas e, também, pelo maior prazo possível.
Fez-se, assim, não luz, mas uma trilha para que os observadores pudessem transitar e aproveitar as riquezas naturais, com a implantação de sinalização dos caminhos a serem seguidos e obedecidos.
Com isto, ali foram introduzidos padrões a serem observados pelos visitantes, sendo que o responsável pelo local realizou um controle da correta utilização para se verificar o respeito às regras estabelecidas.
Para lhe auxiliar a cuidar do cumprimento das regras daquele jardim, foram soltas, estrategicamente, algumas serpentes fora das trilhas, que estavam todas resguardadas através de uma mureta, que limitava, assim, a atuação das serpentes.
As serpentes, deste modo, serviam como fiscais; a mureta, servia como o limite do que era permitido e, à sinalização, divulgava e servia para informar que as regras deviam ser observadas.
Como é comum, infelizmente, logo surgiram os infratores, mas, para esta situação de infração às regras, existiam as serpentes.
As serpentes, para justificarem a existência no belo jardim, estavam ávidas para mostrar trabalho e possuíam a estrutura necessária para corrigir aqueles que não seguiam as regras estabelecidas.
Os infratores, entretanto, não eram todos iguais, embora todos soubessem da existência das serpentes e das regras.
Alguns infratores, mais preparados, se utilizavam de proteções para atravessar as muretas e sair da trilha, fugindo do correto caminho a ser seguido. Como estes infratores possuíam proteções das mais variadas, não eram atingidos pelas serpentes. Por mais que as serpentes tentassem corrigir estes infratores, o máximo que conseguiam eram causar alguns tropeços, já que tentavam também se enrolar em seus pés, causando dificuldades para a locomoção.
Assim, as coisas não iam bem.
As serpentes não conseguiam seus objetivos, quando muito, faziam com que aqueles infratores tropeçassem, mas logo seguiam a sua caminhada pelo caminho proibido.
Todavia, existiam outros tipos de infratores: aqueles menos preparados e desprotegidos, até mesmo, alguns apressados, com intenção apenas de resolver outro problema, cortando o caminho normal. Em relação a estes as serpentes conseguiam utilizar toda a sua estrutura punitiva e intimidatória.
Os infratores que estavam com os pés descalços eram alvos fáceis da punição das serpentes, estavam desprotegidos, sem qualquer meio de se defenderem dos ataques.
As diferenças eram evidentes, mas as serpentes tinham que continuar com o trabalho, afinal, existiam para isto.
O proprietário do jardim, premido pela situação, foi obrigado a criar uma defesa para os pés descalços.
Se as infrações aconteciam e eram inevitáveis, não era possível que se continuasse a permiti-las, o que acarretaria a destruição total do jardim, prejudicando a imensa maioria que não era infratora, em razão de uma pouca quantidade de infratores, preparados ou não.
Mas não havia justiça em se deixar que apenas os pés descalços continuassem a ser oprimidos.
Então, o dono do jardim estabeleceu, diante daquela situação, uma proteção aos pés descalços, ainda que em fase inicial e desproporcional àqueles que podiam utilizar botas. Calçava sandálias naqueles que queriam visitar o jardim, mas estavam descalços, ainda que não pretendessem desviar da trilha.
As sandálias eram entregues a todos os descalços.
Alguns apenas as utilizavam para melhor poder caminhar na trilha, outros, entretanto, como se desviavam do cumprimento de regras contavam, mesmo assim, com aquela pequena proteção.
As serpentes logo estranharam aquilo, já não bastavam aqueles que podiam utilizar botas, agora aparecem estes com sandálias nos pés!
As sandálias, porém, eram o mínimo que se oferecia aos pés descalços para se protegerem do ataque das serpentes.
A proteção evitava que um desvio motivado por um descuido, imprevisto, descuido, desleixo, facilmente corrigíveis, fosse tratado como desrespeito puro e intencional.
Assim, se assegurava que situações de singelo desrespeito fossem diferenciadas de situações diversas, mais graves e intencionais, não tratando coisas diferentes de modo igual.
Ora, se existiam pessoas que podiam utilizar botas pelo passeio e estavam protegidas, nada mais justo do que também fornecer proteção, ainda que módica, àqueles que tinham os pés descalços.
Veja que o proprietário do jardim teve capacidade de enxergar e tentar igualar direitos.
As serpentes, sentiam que tinham mais trabalho, entretanto, sabiam que tinham que continuar em frente, até mesmo, todavia, aperfeiçoando-se em criar modos para não serem mais esmagadas pelos detentores de botas.
Todavia, algumas serpentes se acomodaram, estavam acostumadas a picar os pés descalços e não mostravam empenho em se aprimorar, corriam o risco, até mesmo, de serem esmagadas pelas sandálias.
Os pés descalços por sua vez, sabiam que também podiam caminhar pelo jardim e, se em uma eventualidade, se desviassem do caminho, estariam um pouco mais protegidos.
O dono do jardim, embora não pudesse resolver todos os problemas, sabia que estava no caminho certo, bastava vigiar para que as serpentes não continuassem a picar apenas os pés descalços, vez que os estragos maiores eram causados por aqueles que utilizavam botas.
Assim, o jardim continuava a existir, permitindo que suas flores, aromas, insetos, pequenos animais e pessoas convivessem em harmonia, durante muito tempo, até o eventual fim, acaso nada mais ferisse a terra.




